Kant é referência para toda e qualquer tentativa de desenvolvimento do pensamento e da reflexão modernos. Não é possível compreender qualquer pensador sem que se conheça minimamente, mesmo que superficialmente, as bases do pensamento kantiano. É bom guardá-lo como referência para entrecruzamentos. Descobri, se não me engano em 1993, em um livro sobre história da filosofia o que era estudar um pensador lendo sobre Kant. Deitada na cama – quando ainda me deitava com os livros – tendo o grande e antigo livro preto em minhas mãos, não o tenho mais, pois não consegui restaurá-lo, observei o mundo de Kant tomando forma frente aos meus olhos e descobri que na verdade o pensamento filosófico é mais uma tentativa, entre tantas, de descrição de mundo. Muitos anos depois, dediquei-me profundamente ao estudo de Kant. Primeiramente, às suas três Críticas, das quais considero a primeira fundamental e as outras um desenvolvimento. Só não consegui deglutir as Antinomias da Terceira Crítica. Ao invés disso, e traçando outro percurso, fui descobrir os vieses da metafísica em sua imbricada construção e na crítica velada de Kant ao seu desenvolvimento em Prolegômenos a toda metafísica futura (1783). De fato, como atestei em outra parte, a máxima de Voltaire guiou Kant: “Quando aquele que ouve não sabe o que aquele que está falando quer dizer e quando aquele que fala não sabe o que ele próprio quer dizer , isso é metafísica”. É claro que o alemão não cedeu ao sarcasmo francês, mas criou o seu próprio modelo de ironia em seu conselho aos pensadores de então para fazerem uma parada em seus trabalhos e antes de tudo levantarem a questão de saber “se decididamente uma coisa tal como a metafísica é ao menos possível”. Utilizei estas edições da Vrin que considero honestas:

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